Desculpem-me os mais decididos, mas bem vistas as coisas, no referendo que se aproxima, o voto em branco é o que me dá mais garantias. Ele é aliás o único que me garante qualquer coisa. Desde logo a garantia de que vou perder. É muito provável que ganhe a abstenção. O sim também tem grandes hipóteses de ganhar. Mas como aconteceu no referendo anterior, se os portugueses arranjarem qualquer coisa de interessante para fazer nesse dia, também o não pode vencer. Está de facto tudo em aberto e só os brancos não ganharão.
Ao contrário de 1998, não me consigo definir por qualquer uma das partes em confronto. Na altura abdiquei de ir à praia, vim de propósito a Torres Novas, votei e perdi. Como não me parece bem que se volte agora a questionar aquele resultado, principalmente para as pessoas que trabalharam para o conseguir, o voto em branco é aquele que me permite fazer-lhes alguma justiça, sem necessariamente apoiar uma causa que não é minha. Por outro lado, se o não voltar a ganhar, quantos mais referendos vamos ter sobre a interrupção voluntária da gravidez?
Mas o meu voto em branco é também de protesto dirigido à Assembleia da República, que neste caso se abstém de legislar quando não encontro qualquer razão suficientemente forte para que o faça. Não lhe darei esse gosto. Votarei em branco para que percebam que o voto depositado tem que servir para qualquer coisa. Se não o fizer, qualquer dia estão-me a perguntar sobre a localização do novo aeroporto, sobre o traçado do TGV ou sobre a reforma do sigilo bancário.
A verdade é que discordo frontalmente que uma mulher seja perseguida judicialmente por ter interrompido voluntariamente uma gravidez, algo que é seguramente e por definição um momento penoso. Mas também tenho grandes dúvidas que alguém possa decidir sozinho o futuro de um feto gerado a dois, à luz da máxima “na minha barriga mando eu”, que me parece apenas mais um grande exemplo do individualismo que singra na sociedade actual.
Por outro lado, excluindo as ínfimas (mas existentes) possibilidades de falha dos métodos contraceptivos e os casos de violação salvaguardados na lei, não encontro razões efectivas para que actualmente alguém engravide sem querer. Neste contexto, será a desresponsabilização a melhor resposta à irresponsabilidade? Com estas dúvidas, o melhor que posso fazer é votar em branco. Não me trará qualquer problema de consciência, não prejudica ninguém e ajudará que o resultado apurado seja considerado vinculativo. É mais um voto e está garantido: vou perder.